terça-feira, 12 de abril de 2016

A casa entorna

Quando cheguei, lembro de ter pendurado os quadros na parede
pra que dessem um ar de casa àquilo tudo.
Acendi um incenso pra voltar àquelas tarde de domingo.
Tardes de acordar com alguma música tocando
naquele stereo antigo.
Abrir a porta com um resmungo - aquele cheiro de safal, o que eu gosto -
assim como meu perfume, também o da minha mãe -,
e ela na cozinha aprontando alguma, algum bolo, parente algum,
só nós.
O bom humor, as portas abertas, o vento, safal,
eu gosto, a música, domingo.
Tudo que conseguia fazer era resmungar algo sem sentido
sobre dez horas da madrugada que absurdo,
não me deixam dormir, de férias,
e ela, pipoca, acorda pipoca, de mau humor, sempre, mas senta,
me dê a mão vamos sair pra ver o sol, o samba de maria... Hm? Luisa!
Nem desarrumei as malas, casa, quero cara de casa,
primeiro vão os quadros, os penduricalhos, os filtros de sonho,
pequenas coisas estúpidas de lembrança de um tempo em que tudo era mais fácil,
ou parece assim hoje, visto daqui.

A primeira noite não foi a pior - não era só.
A segunda, quarta, quinta, sétima, todas elas.
Tenho dormido de mãos atadas, porque o escuro me dá medo.
Medo de que seja de verdade.
Todos os meus livros cabem perfeitamente na prateleira, dou risadas
de quão bom ficaram os porta-retratos, em cima deles,
tão velhos quanto, momentos que me escapam,
que não sei mais se me pertencem -
as roupas que precisam dos cabides,
almofadas abafadas garrafas, só. E chega.
Madrugada, o olho no teto, a luz do poste
refratada pela basculante, tudo é muito claro,
não tem escuro, tenho medo.
Tenho dormido de mãos atadas...
As mãos que sobem ao coro cabeludo,
abocanhando um bom tanto e apertam,
puxam, descem, arranham o seu caminho,
as costas convulsas, ao rosto inchado, vermelho,
apertam como que para sentir, arde, coça coça coça, tipo criança,
com sono, acalma, arde, fecha, calma, deita, dorme.

Quando tudo começou a dar errado, quando não era mais criança,
pra eles, respondona! Respeite os mais velhos.
Sei o que é melhor pra você.
Bonita essa sua convicção, mas cadê aquilo
que você disse que ia fazer na semana passada,
cadê, porque na hora de falar é fácil,
mas de tomar responsabilidade, não quer.
Cadê a falta de responsabilidade agora.
Retratos em cima dos livros, fotos de criança,
eu decido onde coloco meus retratos, se coloco,
meus cabides, não passo nenhuma roupa aqui em casa!
Me dê o seu dinheiro e cale a boca.
Na verdade, quer saber, volta. Por favor, volta.
Me deixa voltar, não praí,
mas me deixe estar aí num segundo onde acho que há algo
que eu gosto ainda, depois disso.
Me deixe estar aí aos domingos.

Em algum dia alguém decidiu por mim:
Sentirás sempre aquele aperto na garganta,
aquele aperto de quem ama, e não pode amar.
E quando amares e fores amada, continuarás sentindo o aperto,
a angústia noturna daqueles que só dormem na exaustão,
pois encontrarás o que embargar.
E quando quiseres ser leve, quando quiseres largar mão disso
que lhe foi imposto,
mas que muito bem aceito cresceu e fez parte e faz, e já é em ti,
sempre voltarás a sentir o aperto, a angústia,
o choro com mas sem razão e triste,
pois teu corpo não aprendeu a se mover de qualquer outra forma.

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