sábado, 28 de junho de 2014

Greve da noção do ridículo

Não dá pra entender
essa lágrima que escorre quente
a garganta que aperta, rente
ao desespero de um peito que dói,
que se espalha e faz curvar todo peso
do corpo
esse corpo
que já não se arrasta
mas curva, encobre e cobra
diante de um peso que não é,
não pode ser,
só seu.

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A menina-mulher dá voltas no espaço,
abraça, beija, dança, ri, balança e
alcança o braço,
para cima, além,
às estrelas,
para ver se encontra o problema -
ou ao menos o feto abortado da ilusão
que pariu em algum beco virado em -
sem saída.

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A dor se espalha pelo corpo
como um arrepio,
de início  num riso louco,
lindo rouco leve junto pouco
que mesmo livre e empoderado
tímido subjuga-se a esse choro convulso,
estúpido, indigno, incógnito.

Perguntas:
- Quem és?
- A que vieste?
- Porque não me deixas?
- Ser o que sou contente?
- Ver o que vejo?
- Como vejo?
- Como quero?
- Como esperava?
- Como esperava??
- Ainda espero?

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A mulher-moça testa o corpo em frente -
enfrenta - o espelho.
Quem é
que se vê e
se veste por baixo,
por dentro,
de uma camada amortecedora
e amorfa?
Defende-se como um bicho
de uma ameaça inexistente.

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Rosto quente e o avermelho-roxo
a torrente é grande,
a vazão pequena e vem que
chega e se infiltra e racha
e crac! crac! até que desce um fio d'água.
Agora é calma.
Há um silêncio suspenso,
um lamento irritado -
que previu e desculpa-se,
previamente,
pela falha na arquitetura.
Há, no ar, a certeza do fatídico e,
dali pra frente,
é uma sequência bem óbvia para baixo.

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A moça-idosa dança no ritmo da música.
Tenta expressar no corpo um misto
contraditório
entre o querer dizer e o que acha bonito.
Não faria nada daquilo
caso pousasse foco no espelho -
as ancas de um lado a outro -
e quando, por consequência, o faz
já não reconhece aquele monte
disforme
de unhas, pernas, coxas, curvas, vincos,
pontas, cabelos, olhos, bundas, costas -
pedaços.

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O corpo se põe presente
põe-se em greve
clama a atenção das autoridades
do recinto,
reinvindica melhores condições de trabalho.
Lista condições,
prioridades,
conclusões,
precariedades,
emoções,
variedades.
Defende o direito a:
licença-prêmio,
férias e
fases.
Os controladores das funções
de pensamento e raciocínio
adultos
aderem à manifestação.
Os orgãos juntam-se, unem forças,
comprimem-se, reunem-se,
até que explodem!
em soluços revoltosos.

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