quinta-feira, 26 de setembro de 2013

Gente em conserva

Tenho pena e raiva dessas pessoas
que nunca tiveram um porre decente nas ruas do centro
que nunca viram nada de interessante na decadência,
na bulimia, na boemia, no fumo, no ficar andando
horas a fio, por paisagens desertas e mares e morros, que só apreciam
quando em uma foto-cartão-postal-ou-qualquer-merda-dessas
pendurada na parede de suas casas em tons de bege.

Tenho pena, mas muita raiva dessas pessoas
que evitam os botecos, em seus sonhos de novos-ricos,
e que vão para a aula como quem vai pro trabalho,
sonhando com escrivaninhas, grampeadores,
e os novos temperos importados do mercado,
porque - não, não podem! - não podem comprar um algo
um alho que não tenha vindo da indonésia.

Tenho um pouco de pena, e cada vez mais raiva dessas pessoas
que acham o noticiário local uma bosta,
mas continuam assistindo, e assistem ele,
pelo medo que têm de não saber, no dia seguinte,
na fila do pão - como quem perdeu o horóscopo de ontem -
o que o homem do tempo tinha a dizer sobre... o tempo.

Tenho pena dessas pessoas,
Que nunca fumaram maconha e acham que podem falar algo sobre maconha.
Que dizem nunca ter traído,
mas trocam olhares cúmplices com a moça de saia verde do quinto andar, e
que vão a festas cheias, cheias de gente chata, e julgam outras que lêem livros
e que pegam o carro e vão a uma praia de areias brancas
para nadar sem roupas, ou que tocam embriagados o violão
em um estúdio colorido de luzes, pirando com o tremer das paredes.

Tenho raiva dessas pessoas,
Que sugam os pequenos brilhos de originalidade com seus canudinhos
para depois chamar de inovação e progresso,
e se fazem de inocentes e têm as melhores intenções,
mas que enxugam as lágrimas de culpa, e culpa, e culpam todos os outros! por erros
que cometeram porque, na verdade, era o possível, e se culpam! quando poderiam não.

Tenho pena - e raiva - de quem tenta me ensinar qual é o melhor vinho a ser bebido,
quando, na verdade, eu só quero ficar bêbada.




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