terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Futuros amantes

Não há foto alguma
Daquele casal.

Não há registros
De suas juras e súplicas,
Da vida cotidiana ou
Das núpcias.

Não há escritos
Em cartórios,
Testamentos e
Árvores.

Não existe album de fotografia,
Só os livros que ele lia -
A lareira de tijolos velhos
E desbotados da casa
Não sustenta nenhum porta-retrato.

A cama,
Sempre desfeita, desenha
Os corpos
(com as dobras do lençol barato)
Que estiveram ali, mas só.
Nenhum pertece pessoal, somente
Um gato.

Do outro lado do quarto,
Uma porta.
Do outro lado da porta
A umidade
De um banho recém tomado.
A mulher se enrola
E numa toalha branca sai deixando
Pegadas molhadas
No assoalho escuro e gelado.

Desce as escadas que dão
Em uma sala com só uma poltrona
Velha, mas bonita,
E pára diante das grandes
Janelas em arco
Por uma delas,
Se vê na sacada.

Observa o pôr-do-sol laranja
Num mar revolto:
Única paisagem que mandaram
Emoldurar naquela casa-
Por suas próprias janelas.

Vê um homem de olhar vidrado
Empurrar um barco para a água
E remar, ao longe, até se perder
De vista.
Voltando pra dentro,
Ela apaga o cigarro que ele deixou aceso
Quando decidiu navegar.
Navegar é preciso.

Ele vai voltar.
Antes que os detalhes
De seus traços
Seus trapos,
Escapem da lembrança.
Mas ela não precisa de fotos.

Não há foto alguma
Daquele casal.
Não há registro
De suas juras e súplicas,
Do cotidiano ou eternas núpcias.

Ela sim, se lembrará,
Pois ele é a ausência mais presente...
Mas que o resto do mundo saiba,
Eles poderiam nem existir.

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